Comentários sobre política brasileira e outros temas polêmicos

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13 de dezembro de 2012

"Apenasmente" Cajazeiras

  • Num momento no qual até a presidente da República, Dilma Rousseff, se afasta da condição de magistrada em que deveria sempre se manter e age como qualquer militante partidária, defendendo o ex-presidente Lula das acusações que o aproximam do 'Mensalão do PT', ao ponto de comandar uma blindagem dele tanto na Câmara como no Senado, transformando a 'base aliada' em tropa de choque visando a não aprovação de qualquer requerimento que possa constranger Lula a prestar esclarecimentos sobre as suspeitas que passaram a pairar sobre sua figura idolatrada por muitos, transcrevo, a seguir, artigo de Eugênio Bucci, jornalista e professor da ESPM e da ECA-SP, onde ele compara os 'seguidores' de Lula às famosas irmãs Cajazeiras daquele seriado que tanto sucesso fez na TV Globo nos anos 1970:
Odorico e as irmãs Cajazeiras = Lula e seus 'seguidores'

As irmãs Cajazeiras entraram para a história da telenovela brasileira em 1973, com O Bem-Amado, uma das criações geniais de Dias Gomes. As Cajazeiras eram três solteironas mal-amadas e reprimidas que andavam emboladas, como um ente mitológico de seis pernas e três cabeças, esgueirando-se pelas calçadas estreitas da fictícia Sucupira. As três, Dorotéia (Ida Gomes), Dulcinéia (Dorinha Durval) e Judicéia (Dirce Migliaccio), perambulavam aos fuxicos íntimos, praguejando contra os outros personagens e declarando seu amor ardente, louco e platônico (que depois enveredaria pelas vias de fato) ao “coroné” que mandava na prefeitura, o impagável Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo). Elas bem que remoíam seus ressentimentos contra os desmandos de Odorico – desmandos amorosos, inclusive – mas, fiéis como cachorras, não o criticavam publicamente. Jamais.

Agora, o espírito desgarrado das irmãs Cajazeiras parece querer sair da história da telenovela e ingressar na história do Brasil real. Os adoradores e as adoradoras que circundam a aura de Luiz Inácio Lula da Silva, como guardadores de uma imagem estacionada no meio-fio da política, carregam em silêncio eventuais dores e dissabores. Nunca ousam expressar em público uma letra, uma vírgula de discordância, mesmo que num discreto e mudo repuxar de sobrancelhas. A lealdade irracional e fervorosa desses (e dessas) tomadores (e tomadoras) de conta não cede. Todos e todas, possuídos e possuídas por sua devoção incondicional, numa idolatria que arrebata ateus e crédulos indistintamente, não deixam que se veja em seu ídolo um único lapso de um único desvio. O cenário é francamente grotesco. Blindaram Lula a tal ponto que o ex-presidente começa a lembrar, inadvertidamente, a figura caricata do bem-amado de Dias Gomes. Como um Odorico involuntário, cercado de elegias e apologias tão fanatizantes quanto patéticas, vê-se prisioneiro do culto de si mesmo. Tão refém que não tem o que dizer. Ou: não tem como dizer o que deveria dizer.

De tudo o que vem explodindo em matéria de escândalos que arranham ou evisceram a reputação do PT e do gover­no federal, de mensalão a Rosemary, o que mais chama a atenção e exatamente isso: ninguém, ou quase ninguém, virtualmente ninguém no campo do lulismo esboça uma critica aberta e de boa-fé. No máximo, quando muito, um ou outro considera que seria positivo se o supremo guia se pronunciasse, quem sabe?, mas ninguém parte para o debate franco, destemido, verdadeiro, em público. E como se, aos olhos da nova religião dos idólatras, a opinião publica fosse território inimigo. E como se, fora das hostes do partido, ninguém mais tivesse direito a verdade.

O cajazeirismo vai se impondo como a doença senil do lulismo. Figuras públicas até outro dia respeitáveis por seu espírito livre e por sua inteligência ferina vão se rendendo ao silencio que faz corar os mais ferrenhos adversários. Seria cômico se não fosse melancólico.

O Odorico da ficção errava na ética e na gramática (era dado a expressões como "talqualmente" e "emborasmen­te", além de "apenasmente", evidentemente), mas tudo na maior empáfia, com empolação e galanteios. Demagogo e autoritário (pois servia de sátira contra o regime militar), fazia da pose o critério da verdade e da moral. Quando precisava acobertar suas trapalhadas, tinha ate um assessor de nome Dirceu, o Dirceuzinho Borboleta, borbo­leteante demais para se prestar a qualquer semelhança com personagens dos tempos presentes. Odorico, em dupla com Dirceu Borboleta, encarnava a esculhambação em feitio de realismo fantástico. Bendita escu­lhambação. Desclassificado e vaidoso, demagogo e ignaro, fez muito bem aos telespectadores dos anos 1970: ajudou-os a rir dos opressores.

Agora, a cena e distinta. Não ha mais ditadura militar no pais. Hoje, a assombração de Odorico retorna para zombar não mais de um tirano; mas de um formidável expoente do período democrático, sequestrado pelo culto a personalidade. O Lula real é muito, mas muito superior a adulação alienante que o sufoca. De líder metalúrgico a presidente da Republica, deixou uma obra que, em grande parte, orgulha todos os bra­sileiros. Teria tudo para enfrentar com grandeza as denuncias que dele se aproximam, sobretudo as mais recentes. Em vez disso, prefere se refugiar no mito de si próprio, um mito que, convenhamos, além de precocemente instalado, e oco.

Lula, abduzido pelo cajazeirismo, da sinais de fraqueza. Quanto as irmãs Cajazeiras, que fizeram o Brasil se dobrar de rir, talvez ainda façam o PT chorar.

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